terça-feira, 26 de outubro de 2010

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Cada drinque

Chego no clube e ela já está lá. Sabia que ela estaria, com seus olhos grandes bonitos. Hoje especialmente mais bonita, com um perfume tão gostoso que me fez esquecer de muitas coisas que me entristeciam. Mas claro, não era só para mim. Uma pena.
Primeiro drinque e ela tem mão bonitas. Não por efeito do álcool, as mãos dela já eram muito bonitas antes. Na verdade, a pele dela é muito bonita. No caso das mãos especialmente bonita. Os dedos longos, as unhas sempre bem feitas cobertas por um esmalte suave e brilhante. Beijaria aquelas mãos a noite inteira.
Segundo drinque, os mais fracos já bêbados, ela ri uma risada gostosa. Eu observo em silêncio as orelhas dela com um pequenino brinco parecem dizer: "Morda-me".
Terceiro drinque, a pergunta de sempre: porque eu estou tão quieto. Sempre me perguntam isso, acho que não percebem que eu falo muito pouco, ou então ficam esperando que por ter bebido eu vá virar um papagaio. Não bebo para deixar de ser quem eu sou. Ao fundo uma música irritante. Ela me diz:
- Acho que está tocando um celular...
- Não, é só a música irritante - respondo. Ela vira a cabeça num gesto que me contou que ela me achou chato. Sou chato mesmo. Não gosto de música irritante só porque todo mundo gosta. Mas me senti mal, não queria que ela soubesse que eu sou chato. Se bem que acho que não sou capaz de esconder isso.
Quarto drinque e os olhos dela ficam ainda mais bonitos. É por efeito do álcool no corpo dela que deixa suas bochechas rosas. No meu corpo o efeito é uma súbita vontade de ir ao banheiro. Mas decidi segurar e aproveitar que ela está distraída para admirar seu rosto um pouco mais. Lembro da primeira vez que a vi, achei que fosse visita, mal imaginava que a encontraria aqui todos os dias. Sua boca pequena, rosa sorri enquanto eu imagino como seriam seus lábios. Quentes ou frios? Macios? Talvez bem firmes? Chego a salivar de vontade de descobrir, mas permaneço imóvel no meu assento, ao lado dela que conversa e sorri mal percebendo minha presença.
Quinto drinque ela se senta sobre a própria perna. O pé dela é grande para uma mulher, acho que ela calça 38. Decidi aproveitar e comparar o pé dela com o meu. coloquei o meu ao lado do dela, o dela é pouca coisa menor, deve ser 38 mesmo. Ela veste um sapato preto sem salto que deixa o peito do pé de fora. Que delícia de pés! Eu me divertiria muito com eles.
Sexto drinque observo as coxas dela. Daria o resto dos meus dias por um simples toque. Claro que isso é mentira, sei que um toque naquelas coxas grossas certamente seriam só o começo do que eu realmente desejo, sexo, mas gosto de fingir que o mundo poderia acabar depois que eu tocasse as pernas dela por uma fração de segundo. Acho mais bonito assim. Infelizmente, a maioria das coisas bonitas não são de verdade. Hora de ir ao banheiro, não aguento segurar mais.
Volto e ela está gargalhando das piadas que as pessoas bêbadas contam, por um segundo toca meu joelho me encara e diz: "gente ela me mata!" se referindo a Vanessa que sóbria só fala besteira, imaginem agora. Queria que ela ficasse com a mão no meu joelho por mais tempo, por isso, num gesto rápido, deslizo a ponta dos meus dedos sobre a mão dela que escapa e retora para o copo.
Depois disso ela se levanta e se despede. Eu aproveito e me despeço também. Volto para a casa sozinho.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Acaso

para Sara

São cinco e quarenta e cinco e eu estou dormindo. Em um monte de lugar já há um monte de gente acordada e outro monte que ainda dorme. Nem em todos os lugares são cinco e quarenta e cinco. Uma pessoa em especial está acordando agora, mas não tenho como saber disso, pois estou dormindo e nem sei que são cinco e quarenta e cinco. Não estou sonhando com nada agora.
Em outro lugar, alguém se arruma, toma um café e sai para o trabalho, ás seis e trinta e um. Eu ainda durmo. Ela anda apressada, sentindo um pouco de frio mas sem sentir solidão, pois a rua está cheia. Muitas pessoas sentiriam solidão assim mesmo, mas não é o caso dela, assim como não é o caso de muitas pessoas que já acordaram e das outras que como eu, ainda dormem. Ninguém sente solidão dormindo. Continuo sem sonhar com nada, e acordo às sete, muito gripado. Nesse momento alguém entra num carro, assim como um monte de gente que entra em um monte de carro em um monte de lugares, e pessoas que estão dormindo sonham que entram em carros. Esquento um café no microondas, por preguiça de passar um novo. Tenho muita preguiça às sete da manhã. Queimo a lingua na xícara quente e me sinto completamente desperto. Às sete e vinte e três saio do banho e às sete e meia saio de casa em direção ao trabalho pensando em não ir por causa da gripe. Mas levo esse trabalho à sério demais para não ir. Muita gente vai em direção ao trabalho agora. À pé, de carro, moto, onibus, avião, canoa e conoinha, além de outras tantas formas.
Ao chegar no trabalho, já há gente me esperando. Pessoas de diversas partes algumas felizes outras reclamando por terem que estar ali. Uma delas tentou de várias formas não estar ali. Outra simplesmente não está. São oito e três, mas não em todos os lugares.
Recebo muitos papéis, assino muitas coisas. Recebo muitas instruções, balanço a cabeça muitas vezes. Alguém me chama para resolver um problema de última hora, mas não posso resolver. Apenas uso de toda a minha diplomacia para explicar aos meus colegas de trabalho que teremos que rever alguns pontos do que foi programado para o dia por conta de uma tomada que resolveu não funcionar e por uma entrega gigante que não tenho onde guardar. Às oito e quarenta e quatro eu e meus colegas começamos a trabalhar, assim como muita gente que começa e que já começou. E ainda, não podemos esquecer, há gente que ainda dorme.
Parece que depois das nove da manhã, o tempo passa mais rápido. Talvez seja só uma impressão.
Sorrio, aceno, explico um mal entendido e seguro uma bolsa. Dez para as dez a primeira parte acaba. Chamo meus colegas para um café. Bebo muito café ao longo do dia.E estando muito gripado, preciso de mais café ainda.
Às dez e dezoito, que não são dez e dezoito para todo mundo, nem em todos os lugares, conversamos sobre petróleo. É... o país vai ficar rico, meus filhos vão viver como marajás. Não tenho filhos, mas há gente que tem. Não tenho nem mulher, e há gente que não tem também. Além é claro, das pessoas que dormem e não sabem que tem filhos ou mulher e que são dez e dezoito. Na verdade, agora já são dez e dezenove. Há quem considere dez e dezenove a mesma coisa que dez e vinte.
Estima-se entre seis e oito bilhões de pessoas no mundo. Nós vamos ficar ricos e vamos ser a nata desses números. Sim, pois são apenas um número para muitas pessoas. Para mim são seis a oito bilhões de pessoas, mas admito que mesmo eu - assim como os que ainda dormem, às onze e cinco - não entendendo direito o quanto é um número desses. Nem sonho com um número assim. Mas sei que são pessoas. E duvido que vamos ficar ricos, ou que eu vá ter filhos, mas sei que o petróleo é um bom sinal. Hora do almoço, outro bom sinal.
Estou muito vermelho, todos notaram. É a minha gripe. Decido almoçar em casa e volto às treze horas. Subo as escadas e entro na sala da secretaria. Enquanto faço isso, muitas pessoas almoçam, sobem escadas, dormem e sonham. Eu não estou sonhando com nada agora. Eu penso em voltar pra casa, minha gripe me deixa cansado.
Três mulheres brigam, parece algo sobre um pato. Fico entre elas, em silêncio observando como tudo decorre. Na verdade, estou de prontidão para intervir e protejer se for preciso. Treze e treze a briga acaba, eu intervenho. Uma pessoa precisava de apoio. Cheiro gostoso ela tem. Nem todas dentre as seis a oito bilhões tem esse cheiro, talvez seja único, mas não me arrisco a dar certeza. Seis a oito bilhões é muita gente.
Limpo a mesa da secretaria, são treze e cinquenta e a secretaria tem aquela cara de lugar que já foi campo de batalha. Desço as escada e paro num sofá amarelo. Uso da minha diplomacia para tentar fazer uma das pessoas que não queria estar ali se sentir mais à vontade. Deixo que ela fale sobre o que ela gosta e encontro muitos pontos em comum. É sempre bom encontrar alguém que tenha gostos em comum. E não é tão fácil. Pouquíssimas pessoas às quatorze e seis estão encontrando outras pessoas com gosto em comum. Muitas estão dormindo. Eu não estou sonhando com nada agora. Difícil sonhar com esse calor.
Quatorze e quarenta. A conversa é agradável, até esqueço do calor. Entre seis a oito bilhões de pessoas, um pouco mais da metade é do sexo feminino. Desse um pouco mais da metade, uma meia dúzia não queria estar aqui. Dessa meia dúzia, só uma está no sofá amarelo. Só uma tem um cheiro bom. Só uma tem uma conversa agradável ao ponto de me fazer esquecer do calor. Eu quase não fui trabalhar por causa da minha gripe. Mas acabei indo e estou num sofá amarelo falando sobre cozinha e patos. Se passaram 18 dias e eu penso que não era para nem eu, nem ela estarmos naquele sofá amarelo. Não tenho mais minha gripe mas tenho coisa melhor para chamar de minha. Acaso o acaso teria um limite?

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Mu-mu-mu-mu-mudanças

O sol raiou, o galo cantou e eu acordei no meu quarto, depois de vinte e dois anos. Meu quarto não é mais o mesmo. Aliás, a coisa mais notável no momento do meu despertar, era a ausência das cortinas e o galo. Meu vizinho nunca teve um galo antes. Muito menos um que cantasse quando o sol nasce. Menos ainda um que cantasse tão alto! É bem difícil me acordar junto com o sol, vai ver que o galo sabia disso e caprichou. Acho que despertou o bairro inteiro, e pessoas de sono mais leve dos bairros vizinhos. Parecia que estava dentro do meu quarto, um quarto grande bem maior do que o quarto ao qual eu estava acostumado antes de acordar. E a janela sem cortina fez com que os suaves raios dourados do sol do amanhecer lambessem meu rosto como um leão faminto. Levantei e fui para o banheiro.
O banheiro, por sua vez não estava no mesmo lugar, e nem era da mesma cor e do mesmo tamanho. Era um banheiro chique, apesar de menor. A primeira sensação foi: "Nossa, esse banheiro é tão chique que dá até vergonha de cagar nele.". Tudo tão estranho e eu estava em casa.
Saí do banheiro e fui ver as árvores do quintal... que quintal? não existe mais quintal. Bem, ao menos ainda existem árvores, ainda que intocáveis atrás de muros e grades, ainda que não as mesmas árvores elas estão lá. Não "lá", no quintal, mas ali ó, depois do muro e das grades. Árvores. Nunca brinquei nessas, mas sei que são árvores. Não são as da minha infância mas são árvores. Aliás não podiam ser as mesmas da minha infância mesmo, afinal, uma árvore nunca entra duas vezes no mesmo rio. Sim, porque na minha casa, as árvores entravam no rio, mas só quando chove muito e o rio transborda. E a cada vez é outra árvore e outro rio. Rio esse que também mudou, agora é paralelo. Nos últimos vinte e dois anos o rio era perpendicular à rua, mas agora é paralelo, e corre atrás da casa do vizinho da frente, que já foi meu vizinho antes, quando eu era criança, mas tinha se mudado. Agora é meu vizinho de novo. Vizinho de frente, antes era vizinho de lado. Vai ver virou a casa para ficar na mesma direção do rio.
O galo cantou de novo. E bateu asas tão forte que deu pra ouvir também. Meu vizinho(de lado não o de frente do parágrafo anterior) nunca teve um galo, mas agora tem.
O tempo passou, concluí. Conclusão nada genial, mas absolutamente verdadeira. O tempo passou. Vinte e dois anos voaram nesses meus vinte e cinco anos. Time may change me. But I can't trace time. E ainda tem muitas coisas nas caixas esperando para serem colocadas no seu lugar. Guardar vinte e dois anos em caixas de papelão é bem mais fácil do que colocá-los no lugar. Mas apesar de estar tudo diferente, as velhas coisas tem todas o seu lugar e, devagar, vão saindo das caixas e encontrando esse lugar. Algumas tem lugar novo dentro de lugares velhos, mas todas tem um lugar. Eu tenho um quarto, o quarto não tem cortina, o vizinho tem um galo e o quintal não tem árvores, mas tudo tem o seu lugar.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Sonho

Sempre que eu comento que tive um pesadelo, alguém diz que eu preciso contar como foi, se não, o pesadelo vira verdade. Quase todos meus pesadelos, que são raros devo dizer, são absurdamente improváveis e duvido muito que venham a acontecer. Tive um pesadelo certa vez, onde todas as pessoas do mundo viravam bonecos de plástico. Outro que a gravidade mudava de direção e todas as pessoas eram brutalmente lançadas ao espaço. Pronto contei. Melhor contar do que se sentir responsável caso algo assim aconteça.
Mas e com os sonhos? Se eu não contar um sonho ele vira verdade, por mais improvável que ele seja? Hum... melhor não contar meus sonhos a ninguém.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Pra quê?

Pra quê se importar com qualquer coisa? Pra quê um diploma, pra quê? Pra quê procurar saber se pra quê tem acento circunflexo ou não? Tem gente que nem sabe o que é circunflexo.
Existe alguma coisa realmente importante? Alguém que seja insubstituível? Existe algum lugar que seja especial? Existe um "para sempre"? E se existir, existe pra quê?
Um homem tem que ter dinheiro, uma mulher tem que ter beleza. Pra quê o resto? Pra quê escrever algo que nunca ninguém vai ler? Pra quê?
Nada vai durar pra sempre. E mesmo que existam coisas que durem para sempre -que eu desconheça ou ignore- existem pra quê? A vida cansa. É por isso que ela não é eterna.
Algumas pessoas não tem salvação. Nunca encontram uma forma de se mover, mesmo que sejam capazes de visualizar a saída, não saem. Sair pra quê? Ver pra quê? Mover pra quê?
Existe uma questão? Pra quê? Responder pra quê? Pra quê procurar alguém que te ame de verdade? Pra quê amar?
Pra quê ser amado?
Pra quê procurar o amor se amor não há?
Pra quê se lembrar se a lembrança só faz doer? Pra quê escolher se a escolha é sempre a errada. Pra quê o hoje se o amanhã é mais promissor e o ontem mais saboroso? Pra quê se esforçar quando todo esforço é inútil? Pra quê ser inteligente se não há utilidade pra isso. Pra quê? Pra quê o belo? Pra quê comer, pra quê beber, pra quê chorar, pra quê dormir, pra quê? Pra quê o desespero?
Um homem precisa ser rico, uma mulher precisa ser bonita. Algumas pessoas não tem salvação. Nunca encontram uma forma de se mover, mesmo que sejam capazes de visualizar a saída, não saem. A vida cansa. É por isso que ela não é eterna.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Guarda-chuva

"Rita Apoena não entende por que um guarda-chuva se chama guarda-chuva e não guarda-cabeça. Afinal, de que lado ele está?"

Guardas-chuvas são ilusões. Toda a proteção que ele te dá no fundo, não passa de uma ilusão. Por mais que você se esconda debaixo dele, você sempre molha a barra das calças. As hastes precárias não impedem que os milhões de soldadinhos d'agua que investem do céu te atinjam. Eu me questiono a necessidade dessa proteção. Afinal é só chuva, inofensivo. Os homens crescem, se armam com suas lanças negras que se abrem em direção ao céu para escondê-los de inofensivas gotas d'água. Infantil, como um brinquedo. E como toda criança com seu brinquedo, os homens com seus guarda-chuvas são egoístas, a proteção é indivisível. Tente dar carona de guarda-chuva para alguém. Tente!
Saem os dois molhados.
O guarda-chuva é como a experiência de viver: precário, indivisível e ilusório. E no dividir do viver, saímos os dois molhados.